quarta-feira, 8 de julho de 2009

Coragem

Acho
no tempo
a força em mim,
a luz,
que cega,
me guia,
num traçado
sem caminho,
no caminho
de um destino
sem traçado,
traçado...
Nos medos
acho
a coragem
na cobardia
de me enfrentar
e enfrentando-me
requebro
na fraqueza
de me achar
coragem...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

"Busca"

Busco
um amor maior,
imenso,
maior do que homens,
desse que trespassa
para além da vida,
para além da morte...
Um amor
que se não extingue,
que se não resume
ao egoísmo,
inocente,
de dois seres,
mas expansivo
a todo o belo,
um amor luminoso,
sereno
no sentir,
puro...
Mas carecem,
na minha pequenês,
as palavras
perante a imensidão
do que almejo encontrar,
e nesse buscar,
sem cessar,
extingo-me
na esperança,
de um dia,
nesta,
ou em qualquer outra,
vida
o alcançar...

AV

"Destino"

Banhada
de luz,
envolta por negro manto,
descalça,
vagueio
por sinuosos atalhos
vedo
ao olhar,
de feéricos seres,
as cores do ser
ocultando,
na negritude,
a luz,
que em mim,
de mim,
irradia,
buscando,
para além do "Eu",
uma outra luz,
maior,
mais brilhante,
cintilando...
E ofuscada,
por essa luz,
que não alcanço,
nem enxergo,
continuo caminhando,
descalça,
por sinuosos atalhos,
pedregosos,
onde se me ferem,
e sangram,
os pés,
no cascalho
da vida...

terça-feira, 5 de maio de 2009

"Mar"

Olho as vagas
deste mar,
imenso,
que salgo
de lágrimas,
de saudade,
de um outro mar
que julgara
nos apartar...
Pois que,
em meu jeito,
o mar,
nos separava
quando,
o mesmo,
nos juntava...
Esse mar
de lágrimas
parido
onde se espraia
a tristeza
e afoga
a mágoa...
Mar,
esse,
cor dos sonhos
no turquesa
beijado
por nuvens alvas
de espuma...
Mar meu...
Ora prata,
de nobreza,
ora azul,
ora verde,
de esperança,
onde banho
os sonhos
sombreados
pelo horizonte
que te vela...


terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

"Pintura de sonhos"

Gostaria de,
sobre
o branco perfumado
da folha,
soltar
da alma
mil cores...
Pintalgar
de purpura
os sonhos,
de azul
desejos meus
raiados
de verde esperança...
Na carícia
mansa
do papel
gostaria
de pintar
um mundo,
todo novo,
todo luz...
Mas pintora
não sou...
Resta-me,
somente,
sonhar,
sonhar sonhos
de palavras
feitos...

AV


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Tenho fugido,
das palavras,
de mim,
de viver...
Mergulhei no limbo,
na apatia,
confortável,
de não pensar,
nada sentir,
apenas,
e somente,
agir...
Julguei menor,
assim,
a dor,
julguei
que,
desta forma,
assim,
em mim,
enclausurada,
me pouparia...
Erro meu...
Que o vazio
também doí...
Também fere...
Hipótermia
da alma
que gela
todas as vontades...

AV

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

"Revolta"

Teia
que  enleia,
me enreda,
no turbilhão de ideias,
no grito abafado,
na revolta contida
da palavra calada
que sangra a ponta da lingua,
que greta nos lábios...
Respiração acelerada,
entre cortada,
que ameaça a lágrima,
o choro,
no nó preso que embaraça a garganta...
Dor na dor
de sentir a dor da revolta...

AV

terça-feira, 14 de outubro de 2008

"Aragem..."

Não sou de ninguém,
nem de mim, sequer,
não sou de tempo algum,
sou, somente, miragem,
mero sonho apenas...
Nada tenho,
nem nome de meu,
sou hiato entre o ser e o existir,
palavra,
sou vontade, sensibilidade...
Sou nada, do nada que sou,
vento norte,
sou, simplesmente,aragem
que passa, e, da qual
não restará marca...


AV

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

"Poema inacabado"

Esvoaçam
pelo pensamento,
soltas,
vibrantes,
as palavras,
escapam-se-me
em bandos
arredios...
Voam
para parte incerta
no recanto
da fantasia,
mergulham
em odes,
sonetos,
epopeias desmesuradas
em busca
de um fim,
de um destino...

AV

"Nostalgia"

Nostálgico amigo
que na quietude do Tejo
abarcas tua saudade
dos tempos de outrora,
e recordas, e comparas,
Lisboa, aqui, agora...
Os homens que,
pela vida,
te manobraram,
que o Tejo te conheceram...
Recordas,
com paixão,
o alegre farfalhar
de vozes com que,
pela manhã,
as varinas te brindavam,
relembras, embevecido,
o andar, gingão,
como que embalado,
dos homens que,
vindos das sete colinas,
te vinham adornar
numa cadeia
com seus corpos
ansiosos e viris...
Abarcas,
ainda,
meu saudoso cacilheiro,
a nostalgia deste fim de tarde
e recordas,
com saudade,
o dia que,
uma vez mais,
termina
deixando no sabor da maresia
a doçura
de um passado
que retorna...

AV

"Obra"

O tempo passa,
a vida é rio
que caminha para a foz,
delírio de sonhos
não assinalados em mapa algum...
Passa o tempo mas tu te retens,
meu companheiro,
meu amigo marceneiro,
que, com que mestria,
redesenhas formas
esculpindo em virgem madeira
profanos corpos apelando ao profano,
de prazer, sedento...
Com que atento olhar
perscrutas tua obra,
até branca roupa,
nos varais esparramada,
te vem espreitar,
calam-se escadarias,
escutam-se tuas preces
não mais ditas,
é ardùo teu moirar
mas feliz teu sorrir,
amparado, ainda, por negro bigode
que tantos beijos terá roçado,
é tua atenta testemunha parede,
pelo tempo, despida
pois grande é tua obra
pequena tua vida...

AV

"receita de um poema"

Ingredientes:

Uma boa dose de palavras
Sentimentos a gosto
Doçura quanto baste
Sensibilidade acentuada

Para decorar:
Alma imensa

Preparação:
Pega-se
nas palavras,
toma-se-lhes o peso,
testa-se-lhes o gosto,
a textura...
Manuseandoa-as,
delicadamente,
adiciona-se-lhes,
em boa dose,
os sentimentos
envolvendo-os,
nas palavras,
com tempo
e ternura,
mistura-se,
seguidamente,
o toque de doçura
em medida
de quanto baste
bate-se,
então,
misturando
sensibilidade acentuada,
depois,
de tudo envolvido,
testa-se ao paladar...
Cozinha-se
com vagar
e,
para rematar,
decora-se
com alma imensa...
E assim
se obtém
um poema
sempre pronto
a recitar...

AV

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

"Tanto mais..."

Quantas e quantas vezes
pode um pouco
dizer tanto...
Quantas e quantas vezes
não fala mais alto
o silêncio sobre o verbo...
Quantas e quantas vezes
mais se não diz
na eloquência de um só olhar...
Quantas e quantas vezes
um só verso não diz mais
que todo um poema...
A palavra é, tão somente,
a cor dos sentidos
e esses são imensamente maiores
que qualquer palavra...
Logo, por muito pouco que me digas,
me dirás tanto mais...


AV

sábado, 27 de setembro de 2008

"Sussurros"

Sussurrando segredos,
como vizinhas que são,
se expõem sem medos
e falam com emoção...
Com histórias de dias passados
emudecem suas vozes,
perdidos julgam já
seus tempos idos
e espreitam,
espreitam humildemente,
o dia vindouro
como quem espreita
a hora seguinte,
já não mais receiam desaparecer,
o tempo,
esse terno sábio,
assim as fez saber...
Sussurram,
as velhas casas,
e perguntam à calçada
o dia que passa,
conspiração muda
de tempos antigos...
"É hoje sábado vizinha,
iremos amanhã à missa"
parecem murmurar
recolhendo-se, então,
ás portas da noite
que chega...


AV

"Lisboa"

Meu tempo cruel,
de sedução incomedida de vontade
no despir de teu corpo
por tanta lágrima pelo céu derramada,
tua cor pelo sol consumada,
secreta vivência pela vida declamada...
Exíguo é meu escrever
perante tal fulgor,
é querer, e não querer,
de quem não faz qualquer favor...
E é tal tua majestade
em cada célula de teu corpo
de pedra esculpido,
Lisboa desperta,
que pequeno é meu engenho
para descrever Lisboa
cidade aberta...



AV

"Varina"

Canta Varina canta,
canta e encanta,
liberta teu pregão
e que eterno seu eco seja
nos poros da viela,
que teu fado,
tua sina,
por todo o sempre,
ressoe por entre as pedras da calçada
que teu cheiro,
teu corpo se perpetue
por minhas palavras,
embora parcas e pobres
para reter tua beleza...
Amanhas peixe
como quem faz afagos
e é poema tua voz
que pintor algum
pintar poderá,
desenha na almas
novo caminho
e nos enleva
ao altar da humildade
fazendo-nos sentir nada
no aparente nada
que crês tua vida...
E escamando,
amanhando teu peixe
conquistas cada minuto
da tua existência
como quem conquista
uma batalha mais
sendo mais honrada tua luta
e amorável tua vitória...


AV

"Olhar"

Quanta sabedoria,
quanta mágoa velada,
que tu,
Lisboa,
em um pestanejar revelas...
São olhos que
nada ocultam,
são olhos marcados,
cansados,
marcas de um tempo que,
sem o quereres,
nos relatam histórias
de outras eras,
de outras idas vontades,
impulsos caprichosos
de uma cidade que busca suas gentes
e as usa como adorno,
fêmea vaidosa
piscando o olhar
a seu corpo intemporal ...
Já muito hás vivido,
objecto de tantas paixões
te tornaste,
muitas lutas,
amores,
desamores,
suportaste...
Quanto de ti, Lisboa,
não rezará a história
em uma vontade imprópria
de uma raça que te adora...


AV

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

"Universo de... amar..."

Amar...
Amar é coisa de átomos,
gravidade,
matéria,anti-matéria,
incontáveis estrelas,
gravitando infindáveis de brilho
quais incomensuráveis sois
no olhar...
Amar,
questão de gradações de luz,
energia,
perdendo-se e reencontrando-se
no infinito
do infinitamente pequeno verbo amar...
Amar
é água,
vagas sem distancia,
marés ritmadas pela dança
da lua em noites cálidas
de azul em azul...
Campos magnéticos,
pólos de atracção,
física, química,
do nós, em nós,
na geografia dos corpos
em manhãs de azul-cobalto ferido,
azul-radioso rasgado,
azul-horizonte perdido...
Amar...
Células ouvindo-se,
olhos iluminando-se,
sabendo, de cor,
o barulho do pé no soalho lá fora...
Amar...
E mares, e sal,
governo de lua,
mistério, encantamento,
mulher, pluma,
tela e pétala
comunicando no éter...
Assim é amar...

AV

Inspirado nas palavras de um amigo