domingo, 15 de janeiro de 2012

"Quebranto..."


Quebra-se o fado
da velha vida
no mergulho
de tépidas brumas,
na vertigem
dos ventos
semeados
no tropel
de palavras trespassadas
no quebranto
de um carinho aniquilado…
Quebram-se
correntes
á ferrugem
dos tempos
já idos,
á vinda
de férreas vontades
paridas
no seio cativo
de uma ambicionada liberdade…
Quebra-se o tempo
a cada minuto
rebatido
pelo pêndulo
imperativo
das horas esgotadas…

AV

sábado, 14 de janeiro de 2012

"Vida..."

Serei eu
 quem está
diante desta taça
meio vazia?
Ou serei,
 antes,
a  que se encontra
 diante da taça meio cheia?
Sou,
uma ,
e outra,
a  mesma,
diante da taça meio vazia
sedenta de outro tanto
de vida…
Sou,
a que diante
da  taça meio cheia
ébria  da vida bebida
partiria  já contente…
Por isso brindo
para que a taça,
tão breve
não se encontre,
de todo,
 vazia...

AV

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Porta...

Porta aberta,
aberta ao sonho,
impelindo-nos
a penetrá-la,
a descobrir
um renovado espaço.
 Porta aberta,
aberta
e abençoada,
sua benção celeste
pelos santos
compartilhada...
 É porta amiga
dizendo-nos:

"Vem,
entra,
estou aqui para ti..."

Filha
de inquieta Mulher,
também tu,
por amor,
nasceste,
filha de Lisboa
e de seus eternos amantes.
 Porta aberta,
aberta ao desconhecido,
misto de encanto
e mistério.
 Quantos dramas,
paixões,
encerrados estarão
em teu seio,
quantas lágrimas,
derramadas,
tiveras,
quanto riso
escutado
houveras,
tu,
porta aberta,
aberta á saudade,
aberta para a vida...

AV

Vigia...

Vigia Mulher
no regaço
de tua porta,
espia
o dia que,
sem demora,
se espreguiça,
vela,
sem receio,
o sol,
de um sorriso,
gerado.
 Vigia Mulher,
mas me dá
teu sorrir,
me demonstra
teu jeito
num lento arfar
de teu generoso peito.
 Tua curiosidade,
excedente,
te lança,
num arremedo,
ao postigo
dessa porta,
brutal agilidade,
de um,
aparente,
pesado corpo,
forma indefinida
de agir perfeito,
figura monumental
em meio de caixotes
perdida,
disformidade
comedida
de quase beleza,
árduo corpo
pela vida calejado,
espia pois
Mulher
tudo o que
da vida vier...

AV

Alfama

Réstias de céu
se esgueiram
pela calçada
mal desperta,
vêm beijar
o branco
do casario
e fazem negaças
ás laranjeiras,
que sobranceiras,
espreitam
formosa viela.
 Ainda o dia,
ora nascido,
se espreguiça,
comungando a luz
em rubros beirais
já Alfama
apregoa
sua beleza gentia.
 Com a manhã
violam,
a viela,
matinais cheiros,
que arredios,
se escapam,
por frestas ,
de fecundas janelas
que a custo,
no ventre,
os querem reter.
 É tanta poesia
que
em cada pedra
transpira
que cativos
ficam os olhos
e aprisionada
minha alma...

AV 

sábado, 26 de março de 2011

Paraíso...

Verte-se
sobre leito de erva molhada,
no cheiro da manhã
orvalhos de cristal
em  lençol de neblina
no corpo morno,
redondo,
tão vago,
pleno…
Acama-se a carícia,
à curva suave,
aconchegando-se a mão
ao ventre
buscando,
aventureiro,
a fonte dos desejos
no regato,
regaço,
do colo perfumado…
E ai se queda…
Inerte…
Sereno…

AV

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Ao seio entrincheirado,
segregado da alma,
refém é o coração
ao que  apiedadas,
lágrimas se desprendem
querendo dar de beber
á dor…
Mas,
viciosa,
a dor
não se sacia,
ébria de si
clama mais e mais
afogando nos olhos
a sede de beber
da  fome de beijos
dados à boca
na serenidade
complacente
da carícia negada…

AV

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"Segredo..."

Há coisas que calo,
bem fundo,
tão no fundo do peito
que parece que criam raízes…
Coisas que tento guardar,
coisas que enterro
no mais profundo do ser,
tão fundo,
que parecem que criam raízes…
E florescem,
frutificam…
E crescem…
E, sem querer,
ou querendo não querer,
vou adubando,
alimentando,
até um dia…
Até que um dia
não tenha mais esperanças
que as alimentem
e que,
por si mesmas,
definhem …

E com elas…

Eu...
AV

"Escadaria.."

A escadaria,
abrupta,
que se debruça
no abraço
do corrimão calejado
ás mãos trementes
na  vertigem da descida,
à angustia de quem sobe…
Som que ecoa
ao tropel de passos
acima, abaixo,
Ofegantes…
subindo…
descendo…
hesitando…
O fim
virando principio
no interminável
da roda do tempo
ao pedestal da ascenção…
Enclave de portas
descerrando segredos
no sussurro dos namoros escondidos
à  verdade incerta…
Escada,
Fria… Vazia…

AV

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Bordado inacabado...

Bordando
as horas
em fios de dias
desfio a meada
na cantilena
do desassossego
a que me apego
no  desapego
das mãos que laboram
à desgarrada ...
Tecem,
e padecem,
entre o ir e o vir
da trama tecida,
ás flores enredadas,
na teia de fios,
agora,
de cor,
em alvo linho,
sangradas...

AV

segunda-feira, 29 de março de 2010

Agarrei o meu coração,
peguei-lhe,
pesei-o,
e vi que nada valia,
nada,
só assim se poderia compreender,
só assim perceber,
o porque de,
tão facilmente,
ser magoado!
Peguei no meu coração
e rasguei-o,
jogo-o agora fora,
para bem longe,
para onde não mais
me possa causar estragos...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

"Intempérie"

A intempérie espraia-se
pela noite derramada,
chicoteia com seus uivos
as copas de árvores presas
que narram histórias
deixadas gravadas pelo vento
em cicatrizes pelos troncos...
Histórias de outros ventos
que varreram o interior de mim
na ânsia desabrida
de um tempo escorreito,
sem termo,
na vaga hirsuta
de outras memórias
há muito esquecidas...
Quedam-se
em pedaços
os céus
ribombando em estilhaços
na luz cortante
do pano de fundo
de um horizonte
e no ribombar tenebroso
embalam-se sonos esquivos
à balada das chuvas despertas...

AV

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

"Mística"

Viajo,
parto,
para muito longe,
dentro de mim,
e perco-me...
perco as distâncias do tempo,
das falas,
e vivo,
vivo cada palavra trocada
como minuto recente...
Dentro,
no peito,
na alma,
nada muda,
o sentir e o desejo
permanecem,
iguais,
imutáveis...
As memórias não são passado,
são presente,
de um presente sempre recente...
Ah se a minha alma
te pudesse falar
o que a palavra preguiça em dizer!
Na ternura que me inunda
ao abraço mais que desejado
encharcado na torrente de beijos
mas mal tu sabes...
Mal sabes que a minha mística
és TU...

AV

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Poderia... escrever... sonhar...

Poderia escrever
palavras mil
na senda imemorial
do poema eterno,
na folhagem que se queda
à patine do tempo
que urge em passar
no afã, temeroso,
de que algo, alguém,
o possa reter,
o possa agarrar...
Retê-lo-ía  eu,
se o pudesse segurar,
em escritos, escritas,
das prosas que rimas
no verbo a sonhar...

AV
 

domingo, 13 de dezembro de 2009

Ver...

Porque quero eu
ver o que não vejo?
Perseguir no sonho
a imagem que sonhei
em busca de estrelas...
Em sequência surge o anjo
alado por alva plumagem,
magnificente,
altivamente despojado,
despido,
desvanecendo-se nos céus
de veludo azul profundo,
segue-se-lhe
exótico dragão
de carácter oriental,
reluzente de pó das estrelas,
rasgando o céu
para ceder a vez
a escorreita fachada
de templo de pedra sonhado
que da central janela
projecta invertido feixe de luz
para além do vale...
Persigo o sonho,
para além do sonhado,
e na senda do término do raio
acerco-me do seu fim
junto à escarpa lavrada
e descubro o início
na pedra escavada
diante da qual, eis-me, agora
enfim chegada
apenas porque quero,
porque desejo,
ver o que não vejo...

AV

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sede de escrita...

Horas há
em que a inspiração
não abona,
em que as palavras
não ocorrem,
são horas de secura
sem a saliva
dos versos
para saciar
a sede de escrever...

AV
Acabrunhado
desperta o dia
choroso de chuva caída
no cheiro a terra molhada
de salva, salsa e oliva...
Festeja
o corvo, o gaio e a cotovia
em grasnados e trinados
às bençãos do novo dia...
Segue a cega-rega
do tempo a seguir
e ri-se, agora, o sol
como que a brincar
ás escondidas
com certa nuvem aparecida...
E assim prossegue
em indelével
e silenciosa sinfonia...

AV

domingo, 6 de dezembro de 2009

Elogio do vazio

Tacteio o vazio
na ponta dos dedos
e dedilho o frio
em bailados displicentes
de brisas,
de frestas escapulidas,
escorrendo a fio
o degredo do espaço...
Discorro
a melodia do silêncio
abraçando a escuridão
e num lampejo
da noite que não finda
no dia que tarda
enxergo a lonjura
da claridade remanescente
do dia já ido...

AV

sábado, 5 de dezembro de 2009

Terra nua...

Vilipendiando todas as sortes
no atrevimento comedido
arremeto o olhar
pela vastidão
e encharco os olhos
no verde fresco
dos invernosos prados
embriagados de chuva...
Não me seduz
a terra nua
macerada
de ocre barrento,
não me seduz
despida,
sem seu manto matizado
de esmeralda
e verdes jade
em que,
a medo,
ousa o sol
momentâneas carícias...
Definitivamente
não me seduz
a terra nua,
não arada,
semeada
de ausência de vida...

AV

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Longe...

 Estava longe,tão longe,e não me dava conta do que queria...
Queria a escrita maior,translucida,
queria-a redonda, fechada sobre si, mas...
 Estava longe, tão longe...
Queria-a eterna, fecunda,cheia, cativa, de si, de tanto, mas...
 Estava longe, tão longe...
Queria todas as palavras
em um só poema
e toda a poesia em uma só palavra,

estava, porém, longe, tão longe...
 E não me dava conta do que queria...

AV