quarta-feira, 24 de setembro de 2008

"Amigo"

Amigo...
Amiga...
Amigos
não têm sexo,
Amigos
não têm género,
Amigos
são anjos
feito gente
que,
com saber,
nos aprenderam
a ver
com olhos
de sentir
e,
a saborear,
com palavras
de verdade...

AV

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

"Abraço"

Hoje
queria um abraço,
um abraço quente,
forte,
um daqueles
abraços
que aquecem
até á alma...
Um abraço
somente,
sem perguntas,
sem cobranças,
dos que acalentam
e confortam...
Hoje
gostaria de um colo,
um colo
como quando
em criança,
simples,
terno,
carregado de mimo
e de muitas promessas
de uma doce
e imensa esperança...

AV

"Hoje..."

Hoje
o Amor
acordou fatigado
de,
tão em vão,
ser,
vilmente,
apregoado,
desgastado
de tanto
o verbo
lhe consumirem...
Hoje
o Amor
sonhou,
sonhou do verbo
forma não ter,
ser mais visivél,
uno,
indivisivél,
palpável...
Hoje
o Amor
orou
para que,
Dele,
menos alarde
se fizesse
e mais sentido
fosse...
Por tudo isto,
hoje,
o Amor
chorou...

AV

"Beijo"

Apetecia-me
beijar-te,
não só a boca,
não só o verbo,
mas,
também,
a alma
na nudez
da alma minha...
E,
em transparências
de seda,
despir-me,
nessa nudez,
á paleta
dos beijos dados
em meio
de palavras ditas,
desditas,
escritas,
tocadas,
trocadas,
no entremeio
do veludo grenát
dos lábios teus,
meus...
E,
perdida,
em meio
a beijos nossos
exalar feliz
um último suspiro
no delírio
extenuado
de um beijo teu...

AV


"Raiva"

Em um convulsivo torpor,
chafurdando
na imundice
de almas
conspurcadas
de inveja
me sinto,
também eu,
suja,
suja pela mágoa
de perceber
quão maléfico,
e mesquinho,
pode o HOMEM ser...
Cresce
em mim,
de uma forma
que não domino,
uma surda angústia
gritante
no meu silêncio,
na mordaça
que me imponho,
dolorosamente
impotente...
Com ganas
gritaria
quanto asco
no peito cresce
e aumenta
minha fúria
na impossibilidade
de o fazer...
Cruel humana forma
de ser,
que temo
me contagie
na surdez
que tão imensa raiva
me provoca
pois
que não há
tão desumana
forma de ser
que
a da crueldade humana...

AV

"Tempo"

Tempo,
ter e não ter
um tempo
para dar...
Tempo ao tempo
atempadamente
sem saber,
muito bem,
o que fazer
a um tempo...
Falta-me tempo
para sonhar,
para fazer
o tempo
que me sobeja...
Temporalizar
a verdade,
de si,
temporalmente
intemporalidade...
Saber
gostaria
o que sou,
ao tempo,
no tempo
em que estou...
Sei,
contudo,
que,
de todo,
não sou
tempo perdido,
no entanto,
pedindo tempo,
ao tempo,
perco tempo...

AV

"Sonho"

O sonho
ultrapassa
a verdade,
de si,
inultrapassável,
vagueia em tempo,
de espaço,
diáfano,
divaga
em um verbo
pontilhado
de sentido
e se perde
em um crescendo
de indefinivél
melodia...
O sonho
é força,
paradoxo,
fraqueza,
é tudo e nada,
meias tintas,
pastel,
branco e negro,
paleta em que,
como que sonhando,
pinto,
todo,
um novo dia...

AV

"Ânsia"

Vivo na ânsia
de um tempo
que tarda...
Aguardando
um não sei o quê
e nas entrelinhas
de um tempo corrente
ocupo a alma,
dividida,
multiplicada,
na escrita destas,
ainda que mal,
mas sentidas,
traçadas linhas
traduzindo,
nelas,
toda uma inconstância
de estados de alma
que me dilaceram
e rasgam
o ser
em uma luta,
de sensibilidades
sem senso,
extravasando angústias
e alegrias
em um arremedo
de sentidos projectados
num desejo
bem aventurado...

AV

"Estéril"

Estéril,
no verbo,
na alma...
Como se...
Como se me houvera
secado
todo o rodilho
de palavras,
de sentimentos,
como se
minha poesia
jamais
o houvera sido...
Semi-consciência
do vazio
em mim
na inconsciência
de tanto...
Sei,
no entanto,
que,
do mundo,
tanto ignoro
e ignoro
o que não sei
de tanto
mundo...

AV

"Neblina"

Enfeita a manhã
leitoso véu
de neblina
que turva
o olhar
sobre estas águas
do rio
que me conduz...
Quereria eu
que o horizonte
jamais
se descobrisse
e,
eternamente,
á deriva
navegasse,
sem fim
e sem termo
nesta lassidão
indolente
em que me quedo
cativa do silêncio
e do sonho...

AV

domingo, 21 de setembro de 2008

"Amo"

Amo
o nada
e o coisa nenhuma...
Amo
a solidão
na companhia
de mim
em estridentes silêncios
de um amor
agudo
nos graves...
Amo
o nada
e o coisa alguma
em um eterno
saber
de um amar
sem fim...

AV

"Inércia"

Esfuma-se a vontade
de tudo fazer, de tudo querer...
Debruça-se sobre o ser a inércia
qual desejo imperioso
de hibernar o corpo
e soltar as amarras da alma,
e navegar por sonhos, em sonhos,
deixando a brisa
roçar a face do pensamento
enfunando velas que impulsionam
até onírica ilha de fantasia...
Desejara, eu, aí,
atracar minha nau,
vazia de tudo,
plena de coisa nenhuma,
minha nau, meu batel,
meu sonho feito,
feito barco de papel...


AV

"Memória"

Na cadência
das horas,
ao badalar
do pensamento,
esvai-se
em cada momento,
em atrozes
compassos
descompassados
no desejo,
premente,
de parar,
reter,
memórias vãs,
fugazes...
E no silêncio
me quedo
temendo perder
o embalo
da efémera
memória
de mim...

AV

"Voar"

Ave ferida,
de asas cortadas,
em meu peito
aprisionada...
Engano...
A ave ferida
sou eu,
de asas cortadas,
aprisionada
em mim...
Clamo
por liberdade,
por um céu,
clamo
por dar asas,
ao sonho,
á vida,
vida em mim,
clamo
por silêncio
onde gritar possa
a angústia
que emudeço
na dor
de não poder voar...
Amem-me,
se assim o quiserem,
mas amem-me
livre...
Deixem-me voar...

AV

"Não me falem de amor..."

Não,
não me falem de amor...
Não me falem de sonhos,
de beijos
trocados
no sussurrar
dos lábios...
Não me falem
do calor,
gerado,
no regaço
de um terno abraço,
do perder
rumo ao norte
nos labirintos,
de pele,
de todo um corpo
desejado...
Não me falem desse amor,
não me falem
de amor algum...
Silênciem-se
as palavras...
Que reste o sentir
somente...

AV

sábado, 20 de setembro de 2008

"Incoerências"

Na incoerência
da palavra
espelha-se o desalinho
do espírito
em reveses
de sentidos,
contraditórios,
na apatia
em um vazio,
cheio,
de mim,
de um nada,
todo...
Na incoerência
da palavra,
palavras soltas,
vagabundas
na liberdade
do pensar,
palavras tão somente...

AV

"Liberdade"

Algures,
em um tempo
que não lembro,
me cortaram
as guias,
me tolheram as asas...
Remendei-as
com palavras,
fiz da escrita
céu
e,
assim,
tornei a voar...
Livre
de tudo,
de mais ainda,
e livre,
até,
de mim...

AV

"Pecado"

Tempos houve em que,
no fascínio dos deuses,
julguei encontrar redenção,
que na ilusão,
pela roda do tempo gerada,
sufocaria a angustia passada
e que nos braços de Orphéu
teria, para mim,
o amor a Eurídice destinado,
 que no carro de fogo de Apolo
teria meu transporte,
minha escada para o trono
no Olimpo da utopia...
Sonhei ser Vénus
em alguma paixão...
Por tudo isto me afundei
no pecado torpe
e cruel foi minha sentença
que a uma acutilante solidão,
em horas insanas,
me perpetuou...


AV

"Mulher"

Sou reino de ternura,
fonte de vida,
sou mulher...
Fruto outrora gerado,
semente que irá gerar,
sou terra,
fértil,
onde se dá o trigo,
fonte,
de amor,
permanente
sou primavera,
flor,
botão de rosa
a desabrochar,
coração
sempre pronto
a amar,
sou pássaro,
livre,
voando
em céu aberto,
sopro de calor
quando,
de ti,
estou perto
sou feita
de várias côres
e padrões,
mãe da humanidade
em todos os tempos,
esperança renascida,
dona dos ventos...
Sou confiança
no futuro,
bocadinho de luz
em mundo escuro,
pecado desejado,
teu desejo,
bem aventurado,
sou deusa,
por ti,
venerada,
tua sereia
talvez...
Sou raio
de sol
em cada família,
um oásis
no deserto
do teu desespero,
tábua de salvação
em meio
á tempestade
dos teus sentimentos,
sou estrela,
de luz radiosa,
em todos os firmamentos,
talvez que
teu destino seja
seguir meu olhar
para que
enfim possas
aprender a amar
mas,
concluindo,
dir-te-ei apenas...
Sou reino de ternura,
fonte de vida,
sou mulher...

AV


"Procuro-me..."

Perdi-me,
procuro-me...
Se me virem
dêem-me novas de mim,
de quem fui,
e hoje sou,
do que fiz,
do que hoje faço...
Digam-me se sou,
ou fui,
feliz,
se,
em algum momento,
amei
ou fui amada...
Perdi-me
e não me encontro,
não mais sei
quem sou,
fui,
ou serei...
Se me virem
dêem-me novas de mim,
e apenas digam
que me busco
para que,
de novo,
me encontre...

AV